o desafio do Bitcoin para uma antropologia da economia relevante ⋆ Crypto New Media


“The market is no longer that cold, implacable and impersonal monster which imposes its laws and procedures while extending them ever further. It is a many-sided, diversified, evolving device which the social sciences as well as the actors themselves contribute to reconfigure.” (CALLON, 1998: 51)

Um dos fatos econômicos mais interessantes do nosso tempo, que coloca em xeque antigas e persistentes interpretações do campo da economia, é a criação de inúmeras moedas que concorrem com aquelas emitidas pelos “Estados-nação” — outra nomenclatura problemática no contexto contemporâneo. Os tributários da modernidade sempre irão olhar para o fenômeno das moedas como um meio que precisa ser “domado”: num “capitalismo selvagem” é preciso fundar organismos centralizadores para que moeda saia de seu “estado de natureza” e se adapte à “cultura”. Assim temos bancos centrais, currency boards, bancos comerciais — inúmeros centralizadores que “mediam” as transações comerciais.

A fundação do Bitcoin — a criptomoeda mais famosa atualmente — vem permitindo um novo olhar sobre o fenômeno econômico contemporâneo. Através da tecnologia por trás do Bitcoin — o blockchain — permitiu-se criar uma plataforma em que os dados não precisam mais estar centralizados nas mãos dos organismos oficiais. Agora, as transações são asseguradas por uma rede em que não há mais um centro englobador. Seus idealizadores e defensores garantem que o Bitcoin é trust-free:

“The idea of keeping failsafe records through a distributed network that does not rely on trusted (but potentially inefficient, corrupt or incompetent) intermediaries is perhaps the most radical aspect of Bitcoin, and will be pivotal to a future that will be much broader than money alone.” (DODD, 2018: 48)

O Bitcoin, então, não depende de organismos como o Banco Central e suas possíveis manipulações da moeda através de políticas econômicas. Com o Bitcoin, a própria rede desses usuários pretende-se protegida das ações do Estado e dos intermediários comerciais, garantindo a “saúde da moeda”.

Esse fim das mediações, das regulações, numa busca pela transparência das informações partilhadas por todos os membros do sistema, nos lembra os argumentos do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu Sociedade da transparência. O Bitcoin pode ser visto como mais um elemento contemporâneo importante na potencialização da sociedade da transparência, em que as esferas do poder não mais podem guardar o segredo:

“Todo e qualquer fluxo de informações assimétrico que produza uma relação de poder e domínio deve ser eliminado. O que se exige é, pois, uma iluminação completa recíproca. Não só o inferior é supervisionado pelo superior, mas também o superior é supervisionado pelo inferior.” (CHUL HAN, 2017: 109)

O Bitcoin pressupõe, necessariamente, uma simetria de informações. Assim, é preciso desfatalizar o segredo, eliminar a negatividade. Nesse contexto, por consequência, para Chul Han, a esfera política não tem poder suficiente para atuar já que ela pressupõe o oculto, o segredo: “a política é um agir estratégico. Já por causa disso lhe é própria uma esfera oculta” (CHUL HAN, 2017: 21).

Desde a sua criação, o Bitcoin é, então, uma tentativa de manter a simetria das informações e impossibilitar qualquer manobra dos órgãos centrais que manipulam os valores da moeda. É, no fundo, uma grande utopia a que o homem não estaria mais submetido à uma hierarquia de poder que controla aquilo que permite as trocas universais: a moeda. Autointitula-se trust-free, pois a confiança entre os indivíduos não faria diferença nesse sistema: a tecnologia permitiria, assim, que os interesses pessoais e a falta de confiança entre as partes não façam diferença nas trocas do mercado. Como nos lembra Bill Maurer (2017):

Bitcoin is the brainchild of an anonymous programmer or programmers who penned a white paper under the name Satoshi Nakamoto on the design of a digital currency and released it over the Internet in 2008. The system ‘he’ described used a combination of two existing ideas to create a digital system for exchanging value that shares many of the atributes of physical banknotes — chief among them anonymity, irrevocability, and the inability to double-spend, that is, to duplicate a token and effectively double one’s money. This last quality is crucial in digital environments where such duplication is easy. Satoshi and other cryptocurrency advocates also desired a system that would not depend on any central point of control. This commitment to decentralization derives both from a skepticism or hostility to states and banks — the desire to disintermediate their role in creating money — as well as a transformation of the internet’s distributed network structure into an ideology (Brunton 2015; Dodd 2015).” (MAURER, 2017: 219)

Esse compromisso com a descentralização e com uma liberdade a ser trazida pelo avanço da tecnologia, tem suas raízes em ideias liberais e/ou anarquistas, em que a criação e manipulação das moedas são encaradas como algo que deve estar fora do alcance dos controladores centrais: os Estados e os bancos centrais. Porém, é preciso ver que o Bitcoin conquistou diferentes grupos sociais que têm em comum o fato de serem críticos de determinadas práticas do mercado, como: a idea de reservas fracionárias no sistema financeiro que permite aos bancos ter em depósitos compulsórios uma fatia muito menor do que o dinheiro que circula em empréstimos e outros ativos; a facilidade com que os bancos centrais colocam moeda em circulação com intuitos de expansão do crédito ou financiamento público, com o consequente risco de aumento da inflação; a falta de privacidade em torno das informações financeiras num mundo em que instituições privadas e públicas conseguem trocar informações sigilosas sobre as vidas de inúmeros cidadãos — com a justificativa de prevenção ao crime (como no caso das fraudes e lavagem dinheiro), mas também perseguindo e chantageando indivíduos em países com governos de inclinação ditatorial; a crise de 2008 como um marco de resgate da instituições privadas insolventes por mecanismos estatais de transferência de dinheiro público — o chamado Emergency Economic Stabilization Act of 2008.

Assim, podemos facilmente relacionar o Bitcoin com ideias anarquistas, como descendente direto dos Cypherpunks, ao mesmo tempo que sua genealogia pode ser traçada desde os trabalhos do criptógrafo americano David Chaum, nos anos de 1980, e nas ideias de b-money de Wei Dai e no bitgold de Nick Szabo. Na verdade, o Bitcoin pode ser muitas coisas politicamente:

“In the world of Bitcoin there are goldbugs, hippies, anarchists, cyberpunks, cryptographers, payment system experts, currency activists, commodity traders, and curious.” (MAURER et al., 2013:2)

Sempre, então, ligada à ideias mais libertárias, essa tecno-utopia (Dodd, 2018) carrega a bandeira de uma redenção pela tecnologia, na busca por um mundo menos hierárquico (mais flat, poderíamos dizer juntamente com Latour), menos dependente dos centros de poder, estruturado em redes em que a ideia de confiança entre os agentes do sistema é substituída pela criptografia e transparência. Como está escrito no primeiro artigo de apresentação da moeda, “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, que hoje completa 11 anos:

“What is needed is an electronic payment system based on cryptographic proof instead of trust, allowing any two willing parties to transact directly with each other without the need for a trusted third party” (NAKAMOTO, 2008: 1).

Dizer que o funcionamento do Bitcoin prescinde da confiança entre os agentes, não quer dizer que ele possua um valor intrínseco. Criptomoedas podem ser encaradas como moedas fiduciárias, já que servem como símbolos de um valor a ser determinado pelos movimentos de oferta e demanda do mercado. Confiança, aqui, refere-se mais à confiança na tecnologia por trás da moeda: o blockchain.

“The first system Bitcoin relies on is a distributed database that contains a ledger of all transactions, called the blockchain. Rather than living on one computer or server, the database resides in duplicate form on all of the computers verifying Bitcoin transactions.” (MAURER, 2017: 220)

O blockchain registra todas as transações de Bitcoin, gravando os “endereços públicos” das partes — que, por si, são criptografadas e quase-anônimas. O blockchain é uma espécie de livros de registro contábil especial — ou livro-razão de contabilidade pública:

“It exists everywhere in the network. There is no central repository where it resides or no one central records keeper. Picture the old ledger books kept in the back rooms or vaults of a bank. Now, imagine a good, or fire. With blockchain database, the risk of loss is minuscule if not nonexistent, because every node in the network has a copy of the whole ledger and the system is designed so that the nodes in the network continuously update and synchronize those ledgers.” (MAURER, 2017: 221)

Ao mesmo tempo que tenta ser uma rede fora das amarras dos poderes centrais, mais libertária para os indivíduos, o Bitcoin procura substituir a agência humana pela automatização do blockchain — essa rede de memória infalível, que consegue registrar todo e qualquer evento. Prometendo, assim, um mundo em que tudo será registrado, distribuído pela rede de forma horizontal, “the blockchain seems to promise a world of absolute certainty but with no god. […] [T]he technology maybe god-like but it is a distributed god, at lest in theory” (DODD, 2018: 49). Ou seja, uma rede que tenta ser onisciente e onipresente — god-like — e, ao mesmo tempo, aumenta a agência individual perante o gigantismo das instituições de poder centrais.

Um dos ganhos comemorados pelos entusiastas dessa tecnologia é a possiblidade de se repactuar o pacto social: os indivíduos, agora, poderiam não mais alienar seus direitos em troca de segurança (sensu Hobbes), entregando-os para um poder central, pois essa rede — blockchain — permite acordos livres num nível totalmente horizontal, sem a necessidade de um terceiro. As transações financeiras, então, passam a estar baseadas somente na participação dos agentes, o que supostamente as transforma em mais democráticas, mais transparentes, mais previsíveis e, acima de tudo, mais confiáveis.

O Bitcoin, como afirmou Nigel Dodd (2018), parece substituir a soberania pela vontade geral. Em outras palavras, o Bitcoin tem um approach mais rousseauniano do que hobbesiano em relação ao mundo financeiro. Ao antigo mundo hobbesiano dos bancos centrais, o bitcoin oferece um virtual ledger a que os indivíduos podem se engajar ou não. Foi chamado de “Tecno-Leviatã” certa vez pelo jornalista Brett Scott (2015), pelas suas propriedades ambíguas. Nos comentários de Dodd:

“This is not a contradiction in Scott’s interpretation of Bitcoin, but rather a reflection of its own peculiar ambiguous properties, as a network that sits somewhere between, on the one hand, a structureless, quasi-anarchist, quasi-libertarian space that is free from state regulation […] and, on the other, a system that simply replaces human agency, and therefore human autonomy, with machine code. Arguably, Bitcoin’s essential strangeness — and the difficulty we have in defining it sociologically — is that it fits both descriptions up to a point.” (DODD, 2018: 44)

Essa ambiguidade característica do bitcoin deve ser sempre levada em consideração para que não nos afastemos de todas as suas facetas em nossas análises. Ao mesmo tempo em que esse sistema — e seus participantes — crê ser libertário e fora do âmbito estatal, também impulsiona uma lógica que mina a agência individual através de uma automatização via códigos e estruturas virtuais.

Para além dessas crenças libertárias, a serem concretizadas pelo advento dessa nova tecnologia, a filosofia por trás do Bitcoin também é vista como um “digital metallism”, pois seus entusiastas comparam suas características com as do ouro: é uma moeda que consegue emular a escassez no mundo virtual (há, desde o início, um número máximo de Bitcoins a serem produzidos ou minerados — 21 milhões de unidades); esse escassez, por mais que não possa ser comparada em termos materiais, pode ser observada através dos registros contábeis existentes no blockchain.

A desestatização da moeda, os limites impostos às entidades centrais, uma volta do padrão-ouro, toda essa filosofia por trás do Bitcoin, tem num dos seus pontos de origem, as ideias de Carl Menger e dos economistas austríacos. É possível, então, ver the embeddedness of economy in economics, como já demonstrou Michel Callon:

“This can be summed up in the following noteworthy phrase: economy is embedded not in society but in economics, provided one incorporates within economics all the knowledge and practices, so often denigrated, that make up for example accounting or marketing.” (Callon, 1998: 30)

Essa tecno-utopia se assenta não apenas no desenvolvimento tecnológico, mas numa série de teorias econômicas (e filosofias sociais) que irão moldar os relacionamentos, os discursos, a propaganda e os símbolos utilizados pelos true believers.

Como antropólogos, precisamos também compreender como atuam os mecanismos de crença nesse novo ator do mercado, o Bitcoin. Como faz Dodd, devemos também observá-lo de modo a contribuir com sua análise através das entranhas do contemporâneo. Se formos por macroteorizações, de que as novas moedas são fenômenos novos de um capitalismo que se reinventa apenas para manter seus tentáculos dominadores sobre as camadas desfavorecidas, uma nova tecnologia criada para manter o estado de alienação, nada saberemos sobre o fenômeno. Microteorizando, partindo de pequenos grupos que lidam com essas moedas, essa produção e consumo, obteremos algumas informações. Mas, com o Bitcoin, como esse exemplo de fenômeno contemporâneo da economia, devemos agir de forma a não permanecer muito tempo em um dos lados — micro e macro, ator ou sistema. Devemos nos movimentar entre os signos, sem se precisar a encontrar estruturas que englobam relações, nem ações que determinam estruturas.

No contemporâneo é preciso, assim, atualizar essas análises. Ler os clássicos sempre, mas trazer à tona a produção contemporânea que, aqui, aparece entre alguns nomes. A economia — produção, consumo e seus intermediários — precisa de um tratamento menos anacrônico, para que as Ciências Sociais possam oferecer mais clareza ao debate.

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A pesquisa que desenvolvo em torno dessas temáticas — que ainda encontra-se em fase inicial — tenta olhar também para o contexto brasileiro. Quando relacionamos o Bitcoin — e suas ideias — com as características culturais nacionais, ganhamos uma infinidade de novos insights muito importantes para a análise das perspectivas econômicas e culturais do país.

Como vimos, a “socially necessary fiction of Bitcoin” (Dodd, 2018) essencial é a ideia de que ele é trust-free: a tecnologia conseguirá suplantar a necessidade de confiança mútua, de participação política, de intermediários, de meios. Nesse desencantamento do mundo, como se colocaria uma sociedade profundamente relacional, que ao mesmo tempo em que, como afirma DaMatta (1993), age no pólo da “rua” — o mundo das leis impessoais, do mercado, da história linear e do progresso individualista — , necessita sempre voltar-se à “casa” — vazada de conotações morais, relações pessoais, tradições religiosas, avessa ao individualismo e ao progresso?

Para além disso, o fato da emulação de uma escassez com as consequências deflacionárias do seu uso, torna o Bitcoin um instrumento complicado num mundo em que a ideia de crescimento econômico está atrelada à promoção de alguns setores de investimentos subsidiados pelo Estado, ou a promoção de uma distribuição intersetorial de renda através do poder de barganha de certos grupos relativamente ao Estado. Sem contar o papel crucial que o Banco Central teve ao longo da história brasileira — já tendo sido chamado de Leviatã Ibérico pelo cientista político Eduardo Raposo (2011).

Sem contar o fato de que a materialidade da moeda ainda importa: 71% dos brasileiros ainda preferem quitar seus débitos com “dinheiro vivo” (nomenclatura também muito reveladora).

Quais são as possibilidades do crescimento do uso do Bitcoin no Brasil? Quais serão as consequências de um possível crescimento no seu uso? Cenas dos próximos capítulos.

Referências

CALLON, Michael. “Introduction: the embeddedness of economic markets in economics”. In: The laws of the markets. Oxford: Blackwell, 1998.

DAMATTA, Roberto. “Em torno da matriz cultural da inflação: notas sobre inflação, sociedade e cidadania”. In: Conta de Mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

DODD, Nigel. “The social life of Bitcoin”. In: Theory, Culture and Society, 2018, Vol 35(3), 35–56.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis, Vozes, 2017)

HAYEK, F.A. Denationalisation of Money: The Argument Refined. London: Institute of Economic Affairs, 1976.

KUHAR, Lea. “Economy of (mis)trust: The case of bitcoin”. (Link: https://www.eurozine.com/economy-mistrust-casebitcoin/). Eurozine, 2019.

LATOUR, Bruno. “Como terminar uma tese de sociologia: pequeno diálogo entre um aluno e seu professor (um tanto socrático)” In: Cadernos de Campo USP. São Paulo: n14/15, 2006.

_____________. Reassembling the Social: an introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford University Press, 2007.

_____________. “Il n’y a pas de monde commun: il faut le composer”. In.: Multitudes. N. 45. Special, été 2011. Disponível em: http://www.multitudes.net/il-n-y-a-pas-de-monde-commun-il/ (Tradução: Vinícius N. Honesko, 2018)

MAURER, Bill. “Blockchain are a diamond’s best friend”. In: Money talks: explaining how money really works. BANDELJ, Nina; WHERRY, Frederick F.; ZELIZER, Viviana. New Jersey: Princeton University Press, 2017.

MAURER, B; NELMS, T.C.; SWATZ, L. (2013) “‘When perhaps the real problem is money itself!’: The practical materiality of Bitcoin”. Social Semiotics 23(2): 261–77.

NAKAMOTO, S. “Bitcoin: A peer-to-peer electronic cash system”. Link: https://bitcoin.org/bitcoin.pdf .

RAPOSO, Eduardo. Banco Central do Brasil: o Leviatã Ibérico. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2011.

SCOTT, Brett. “A Dark Knight is better than no Knight at all”. King’s Review, 24, March 2015. (Link: http://kingsreview.co.uk/articles/a-dark-knight-is-better-than-no-knight-at-all/).

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